Como se comportar em outros países
 
Boas Maneiras Mundo Afora
Por Andreas Gunther

O que é um gesto civilizado aqui pode ser insulto em outro país. Um guia curioso para viajantes.
Quando viajamos para lugares distantes, não há porque tentar bancar os camaleões. Alguns poucos dias não bastam para nos tornar nativos. E ninguém espera isso. Eis algumas dicas que aceleram o processo.

África do Sul – Três quartos da população são africanos negros, com os zulus representando o maior continente. A África do Sul é um eldorado de costumes e tradições diferentes, e existem 11 línguas oficiais. A maioria dos brancos fala africâner, mas o cumprimento em inglês será compreendido e aceito por quase todo mundo. Os zulus e os suazis empregam a poética expressão “sakubona”, literalmente “vejo você”. Vigorosos apertos de mão são bem-vindos. Os amigos se saúdam com um aperto de mão ritual em três fases: primeiro enganchando os dedos mindinhos, depois apertando as mãos e, por fim, tornando a enganchar os mindinhos uma última vez.

Alemanha – O alemão é supostamente meticuloso, confiável, pontual e desprovido de senso de humor. Melhor ignorar os preconceitos: saímos ganhando se tratarmos o alemão com humor. Não há nenhum tabu em relação ao terceiro Reich. Sempre pertinente é a disposição a pontualidade. Estar 15 minutos atrasado ainda pode ser desculpado, mas quem faz a pessoa esperar mais do que isso é considerado um ladrão do tempo. Muito importante, não só para os homens alemães, é cuidar do carro aos sábados.

Argentina – A etiqueta exige que os homens usem terno até com a temperatura elevada. O homem argentino se gaba da fama de homem caballero, o máximo em requinte e cavalheirismo. Essa postura também se aplica aos contatos pessoais. Não se atrase para almoço ou reuniões de negócios. Mas, se for convidado para ir a casa de alguém, é melhor chegar dez minutos depois da hora marcada.

Austrália – Antes de ir para a Austrália, aprenda as regras do críquete, ou poderá se ver excluído das conversas. E lembre-se que a capital é Camberra, não Sidney. O britanismo dos australianos é bem aparente, mas não muito arraigado. Eles logo criam laços de amizade e em poucos minutos começam a nos chamar pelo primeiro nome. Embora a Austrália seja conhecida pelos magníficos vinhos, a venda de bebidas alcóolicas é cuidadosamente regulada. Alguns restaurantes nem as serve. Mas levar a própria garrafa não é mal visto.

Áustria – A democrática Áustria aboliu todos os títulos de nobreza em 1919. Os austríacos, porém, relutam em agir de acordo com o protocolo e usam qualquer título: seja acadêmico ou honorário, como Hofrat (conselheiro governamental) e Kommer-zialrat (conselheiro do comercio). Até barão e condessa ainda são tratados como tais (Herr Baron e FrauGräfin). Gnädige Frau (Vossa senhoria), no entanto, é considerado antiquado lá também. A procura de um assunto que encante qualquer austríaco? Fale sobre a grande tradição musical do país: Mozart, Haydn, Beethoven e Mahler, por exemplo.

Benelux – Os países a noroeste da Alemanha (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) nem sempre são muito simpáticos a vizinha maior. As imagens deixadas pela 2ª guerra mundial ainda estão presentes. Na Bélgica e em Luxemburgo, a influência francesa é inequívoca, ao passo que os holandeses mantém a própria cultura. A autonomia regional é importante. Na Bélgica a distinção entre as partes flamenga e valona da população é crucial. Atenção: nem todos os belgas falam francês.

Canadá – Nunca chame um canadense de americano. Em Montreal e na província de Quebec, o francês é a língua principal; no resto do país fala-se inglês. Os canadenses adoram jantares formais. E quase sempre o convidado mais velho faz um pequeno discurso antes da sobremesa.

Chile – Quando se encontram, as mulheres trocam beijos nos rosto, e os homens, apertos de mão. A maior honra para um visitante é ser convidado para um churrasco. Mas não esqueça de levar para o anfitrião um dos excelentes vinhos chilenos. E tenha cuidado com assuntos políticos: a ditadura deixou marcas.

China - A china testemunhou a queda do império e a revolução. Os cidadãos são liberais e adotam modos ocidentais nas cidades grandes. Mas em áreas rurais a gafe pode gerar confusão. Se você estiver viajando a negócios, nunca se esqueça do cartão de visita. Pegue-o com formalidade e ofereça-o com toda a cerimônia possível. Caso receba algum, não o jogue casualmente no bolso, mas demonstre seu apreço e guarde-o com cuidado na carteira e mostrando que está feliz com a honra. O pior que podemos fazer é espetar o arroz nos pauzinhos de comer. Trata-se de um gesto vindo dos ritos sacrificiais e é considerado blasfêmia.

Dinamarca – Os dinamarqueses não gostam de ser considerados o menor país escandinavo. Afinal de contas, conquistaram a Groelândia. São divertidos e donos de uma ironia sutil, à qual nem todo visitante esteja acostumado. Outra observação: os meses de julho e agosto ficam reservados para os prazeres do verão, de modo que não é a melhor época para compromissos de negócios.

Espanha – A sesta é sagrada, então não marque compromisso entre as 14 e as 16 horas. Se for convidado para jantar não apareça antes das dez. Uma vez lá a melhor maneira de ganhar o desprezo do anfitrião é começar a discorrer sobre os prós e contra das touradas. Em vez disso, mencione o fato de que, depois do inglês, o espanhol é a língua comercial mais importante do mundo.

Estados Unidos – Nem sempre é fácil avaliar a medida certa de familiaridade dos americanos. Chamam-nos pelo primeiro nome quase de imediato, perguntam tudo a respeito de onde viemos e se despedem com um simpático “até breve”. Mas não devemos levar isso muito a sério. O bate papo é uma arte nos contatos de negócios, e as pessoa se interessam muito por esporte, então tente se safar por aí. Fumante quase sempre são banidos para áreas explicitamente designadas. Embora os americanos apreciem bebidas alcoólicas, elas são limitadas em vias públicas.

Europa Ocidental – Poloneses, húngaros, checos, eslovacos e búlgaros gostam de ouvir que vivem na Europa Central. Para eles a palavra “oriental” tem algo de exótico e marginal. E, depois de se livrarem do domínio soviético, muitos desse países de fato começaram a parecer cada vez mais ocidentais. A Polônia sempre deu muita importância a educação e à boa cultura: quem pode cultiva vinho, iguarias e luxo. Na Hungria, beijar nas mãos das mulheres voltou à moda entre os políticos. Uma possível fonte de equívocos na Bulgária é que, quando os nativos fazem sim com a cabeça querem dizer “não”, e vice-versa.

Finlândia – Esteja preparado! Muito provavelmente o anfitrião vai convidá-lo para ir à sauna da casa. É sinal de alta consideração. Nesse caso, tenha uma boa desculpa pronta, ou aceite o convite. Fumar é permitido, mas em geral só do lado de fora da casa.

França – Se a baquete não for servida fatiada, corte-as com as mãos. A dona da casa espera que os convidados levem flores, champanhe ou chocolate. O beijo no rosto como forma de saudação já ganhou a Europa, mas hoje esse modo de dizer “olá” quase não envolve o contato dos lábios com a pele.

Grécia – O grego “autêntico” jamais assina contrato em Terça-feira 13. Terça-feira é o dia que o império bizantino caiu. O que mostra como os gregos ainda estão voltados para sua grande civilização, embora não gostem de ser comparados a ela. Assunto a ser evitado é o conflito insidioso com a sua vizinha Turquia. E nunca estenda a mão com os dedos abertos para ninguém: é insulto mortal. Por confuso que seja, os gregos inclinam a cabeça para baixo quando querem dizer “sim” e a voltam para cima se querem dizer “não”. Ótimas maneiras de fazer amigos: na segunda-feira, desejar à pessoa uma boa semana; no início do mês, fazer votos de que ele seja bom para ela.

Índia – A Índia possui um sistema de casta rígido. Os próprios indianos sabem disso e alguns preferem não tocar no assunto. Tire os sapatos antes de entrar em casa alheia ou lugar sagrado. Quando for se deitar, os pés devem ficar na direção das imagens dos deuses. Demonstrações públicas de afeto são tabu. E muitos indianos não gostam de bebidas alcoólicas; então, até o melhor vinho pode ser um presente inadequado.

Irlanda – O jogo de equipe mais antigo na Europa? É o hurling, forma de hóquei que os holandeses jogam a mais de 2 mil anos. A bola pode ser tocada no ar ou no chão, e quem quiser pode pegá-la e segurá-la nas mãos. Ainda é o jogo mais popular na Irlanda, ao lado do futebol gaélico, que mistura rugbi e futebol. Políticas tributárias liberais tornaram a Ilha Esmeralda um atraente local de negócios e cabeça-de-ponte para empresas americanas que se vêm estabelecendo na Europa. O que antes era um clássico país de emigrantes virou meca de desenvolvimento comercial. Não tente derrubar essa imagem: os irlandeses de orgulham dela. As conversas serão em inglês, mas o cumprimento irlandês é “Dia dhiu”, que quer dizer “Deus esteja convosco”. Para a despedida enrole a língua e fale “ Slán agat”, resposta adequada a “Slán leat”, ou seja, “Vá em segurança”.

Israel – A república de Israel existe desde 1948. Mas nos noticiários vemos apenas parte dela. A maioria dos israelenses está familiarizada com o modo de vida ocidental; é alegre, informal e sociável. A minoria dos judeus ortodoxos faz o que pode para impor um sistema rígido de normas religiosas ao país. Advertências mais importantes a considerar: o sabá começa ao pôr-do-sol de sexta-feira e vai até o pôr-do-sol do Sábado; não há transporte público no sabá (a cidade de Haifa é exceção); os judeus comem alimentos kosher (que atendem aos preceitos judaicos), nada de porco ou crustáceos (carne e laticínios devem ser ingeridos separadamente). É necessário cobrir a cabeça para visitar as sinagogas. Para as mulheres, basta uma echarpe; os homens devem usar o solidéu denominado “quipá”, pequeno gorro redondo em geral disponível à entrada da sinagoga.

Itália – As diferenças entre o norte e o sul não são apenas discrepâncias em termos de prosperidade econômica. Uma pequena indiscrição, que só provocaria ligeira reprovação em Veneza, talvez nos deixasse em apuros na Sicília. Duas instituições são sagradas: a igreja católica (com todo seu aparato) e a família. Não coma às pressas à mesa. Os anfitriões vão ficar ofendidos e você vai deixar de saborear uma comida deliciosa. Aproveite o maravilhoso vinho, mas alterne-o com água mineral, como fazem os italianos. Beber até a embriaguez não é bem visto.

Japão – Os japoneses têm dezenas de maneiras para fazer reverências. Em geral, o detalhe principal é o ângulo de inclinação do tronco – 45º costuma ser adequado. Com freqüência, cumprimentam-se os estrangeiros com apertos de mão. No Japão o chão não é só para andar, mas também para sentar e dormir. Então, tire os sapatos antes de entrar numa casa. Quando uma pessoa espirra, os japoneses educadamente ignoram o fato. Afinal, o espirro não é voluntário. A cultura japonesa se baseia no respeito pelos mais velhos. Presidentes de empresas quase sempre tem cabelos brancos e, durante as reuniões, podem cochilar sem a desaprovação de ninguém. É sinal de confiança tácita nos funcionários.

México – Os mexicanos respeitam a igreja e os símbolos de status social. Quanto às famosas cervejas mexicanas, lembre-se de que a fruta (limão) que as acompanha é para fins higiênicos e não para misturar na bebida. É usada para limpar o gargalo da garrafa e livrar da “vingança de Montezuma” (diarréia) quem estiver bebendo.

Mundo Árabe – Aqui o passado manda. A tradição beduína deixou sua marca na vida pública, assim como, é claro, o Islã. As características diferem de um lugar para outro. A Tunísia tem ares cosmopolitas, ao passo que a Arábia Saudita é muito mais conservadora. Os valores tradicionais da cultura beduína são rigidamente preservados: toda pessoa estranha é visita e será tratada como tal. Isso ás vezes pode passar dos limites. Se lhes oferecerem jóias – ou a filha do anfitrião – como presente, considere uma forma de cortesia e recuse com educação! Os trajes devem ser decorosos em todos os momentos. Ignore o calor e cubra-se da cabeça aos pés com tecidos leves. Mulheres com pouca roupa são comparadas a prostitutas. Em geral, a mulher é considerada propriedade do marido ou da família, de modo que o turista homem deve evitar a troca de olhares com mulheres cobertas e jamais deve tentar fotografá-las! Manifestações públicas de afeto são tabu, assim como o álcool e a carne de porco. A mão esquerda é julgada impura, e reza a tradição que seja usada na higiene física. Os canhotos não devem se esquecer disso.

Noruega – Elogie a beleza natural do país – ou, antes, a maneira como os noruegueses a preservaram. Os habitantes do norte da Europa adoram barcos e casas de veraneio. O que ele não gostam – como muitos outros escandinavos – é de críticas ao álcool. A maioria dos noruegueses aprecia um drinque, mas também há muitos abstêmios convictos. Seja como for, bebida alcoólica é cara. Antes de levá-la de presente, pergunte o tipo preferido do anfitrião.

Portugal – Os portugueses são loucos por futebol. Se você já ouviu falar de Eusébio, Figo ou Rui Costa, vai conquistá-los de imediato. E ainda pode fazer gol à mesa de jantar elogiando a cozinha mediterrânea. Mas tome cuidado com as estradas. O trânsito português é um perigo.

Reino Unido – Quando nos referimos aos “ingleses”, excluímos galeses, escoceses e norte-irlandeses. O país de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte possuem identidade cultural própria. A população ainda é marcada pela consciência de classe. A classe trabalhadora, a classe média e a classe alta falam de modo diferente, freqüentam escolas distintas e vivem em áreas diversas. Manter distancia é o lema, ameaçado apenas na hora de entrar na fila – pacientemente! Aconteça o que acontecer, não “fure a fila”.

Rússia – Você se lembra do famoso “beijo fraterno” entre o alemão Honecker e Gorbachev? Se for o caso, pode esquecer, já saiu de uso. A atitude em relação à vodca também esfriou em alguns segmentos da população. A bebida agora é servida em pequenas doses, que os russos esperam que tomemos em um só gole. Brindes sucintos e cordiais também descem bem. As formas de tratamento são complicadas. Em situações formais, ou se existe uma grande diferença de idade, é preciso saber o patronímico do anfitrião (não apenas o sobrenome) a fim de que o tratemos como convém: Pjotr, filho de Ivan, por exemplo, será chamado de Pjotr Ivanovich; Olga, filha de Ivan, será Olga Ivanovna.

Suécia – Os suecos são orgulhosos, e não sem razão. O padrão de vida é elevado; a política social, um exemplo para o resto da Europa. E eles querem que tudo ocorra de acordo com o protocolo. Se você for a alguma festa formal ou reunião de negócios, chegue na hora marcada e seja simples.

Suíça – Quem é suíço não é apenas suíço. O país tem quatro línguas oficiais; alemão, francês, italiano e romanche. Os membros dessas comunidade lingüisticas possuem tradições diferentes, muitas das quais semelhantes às de seus estados vizinhos. Como um todo, porém, o país insiste na autonomia, e isso não deve ser questionado. Mas temas como a adesão à União Européia ou o papel da Suíça na 2ª Guerra Mundial já não são tabu.

Tailândia – Neste país, a soleira da porta é considerada morada dos bons espíritos; portanto jamais ponha os pés nela. Tampouco devemos pisar no dinheiro. As cédulas trazem a imagem do rei, e pisar numa delas é caso de lesa-majestade. Nunca mostre a sola do pé a ninguém. Os pés são considerados a parte mais baixa do corpo, e apontá-los as pessoas é insulto.

Turquia – Istambul é onde a Europa se encontra com a Ásia, Religião e Estado são constitucionalmente separados. A igualdade dos sexos é reconhecida, e desde 1923 as mulheres têm o direito de votar. A Turquia é um país hospitaleiro. Caso seja convidado para o almoço, prove todos os pratos. Se alguém se retira durante a refeição, os demais param de comer até a pessoa voltar. Regatear nos preços é prática que se limita aos bazares e vendedores de rua. Não tente pechinchar em supermercados, loja de departamentos ou restaurantes. “Merhaba” é o cumprimento padrão turco.